Carta aberta do Dr. Bartô sobre a volta da cerveja aos estádios de futebol

 

Sobre a notícia de que A cerveja deve voltar aos estádios paulistas, assunto encampado pelo presidente da FPF (Federação Paulista de Futebol), Sr Reinaldo Bastos, o vice-governador do estado, Sr  Márcio França, e o deputado estadual e presidente do TJD-SP, Delegado Olim, nos desculpem a franqueza: ISTO É UM RETROCESSO!

Recentemente a Sociedade de Pediatria de São Paulo esteve com o Governador do Estado Geraldo Alkmin discutindo o problema da experimentação de álcool e outras drogas entre os jovens. Aos dezessete anos, 25% dos alunos das escolas públicas no entorno do HU-USP já experimentaram o cigarro, 20% a maconha, 5% o crack e 60% a bebida alcoólica.

Sabemos que, o fato de termos conseguido diminuir o número de fumantes no Brasil de 30% para menos de 10% deve-se em grande parte à retirada da propaganda de cigarros da grande mídia, ao aumento do preço do cigarro, ao tratamento gratuito para quem deseja parar de fumar e à legislação rigorosa da LEI Ambiente Fechado Livre do Tabaco, que teve apoio de diversas entidades da sociedade civil, incluindo a Sociedade Brasileira de Pediatria.  

Além da publicidade gratuita que a bebida receberia ao ser vendida nos estádios, em um evento que deveria ser para toda a família; lembramos que a violência no entorno dos futebol se deve em parte ao abuso da bebida alcoólica. Nos últimos meses fomos chocados, novamente, com a morte de torcedores nas cercanias de estádios. Trazer a bebida para dentro dos mesmos é um péssimo exemplo para todos, inclusive para os menores de idade que acompanham esta paixão brasileira.

O Governador de São Paulo apoiou as medidas que sugerimos em nossa reunião no Palácio do Governo no Morumbi, que foram:
- Aumentar o preço da bebida alcoólica em São Paulo, e conversar com os governadores dos estados vizinhos para se evitar a luta do ICMS.
- Proibir a venda de bebida alcoólica no entorno das escolas públicas ou privadas.
- Proibir a venda de bebida alcoólica em postos de gasolina.
- Punição para a venda de bebida alcoólica a menores de idade.

O governador apoiou todas estas medidas e nos orientou a procurar o deputado Floriano Pezzaro (Secretário de Ação Social do estado) para discutirmos como implementar este assunto. Não somos contra a cervejinha de final de semana, mas ao mesmo tempo entendemos que, do ponto de vista médico, o álcool é sim uma droga lícita que precisa ser entendida em um contexto maior. Se combate a cracolândia, mas esquecemos que quem está lá é dependente não só de crack, mas também de álcool e maconha; ou que mortes e violência doméstica causadas pela bebida são maiores do que pelo crack. Sem levar estes pontos em consideração, a discussão das bebidas nos estádios permanecerá incompleta. Esta não é uma questão somente econômica, mas de saúde pública.

Senhor governador: estamos aguardando a discussão com a sociedade das medidas sobre as quais conversamos. Nos espanta ver sua base política apoiar medidas de retrocesso à legislação do consumo de bebida alcoólica, uma vez que acreditamos no apoio do seu gabinete às medidas que propusemos

Sabendo do poder econômico na política, escancarado em tempos recentes, além da tentação de se criar novas receitas à base de canetadas e não de planejamento, calculamos a força oculta da indústria cervejeira e de clubes de futebol para que se aprove estas medidas.
Nosso compromisso, entretanto, é com a saúde e o bem estar de todos. Por isto nos colocamos publicamente contrários a estas medidas.
O álcool é a segunda causa de morte evitável no mundo. Pensem um pouco nisso.

dr-joao-paulo

 


João Paulo Becker Lotufo
Médico pediatra da SBP, SBPT e SPSP, responsável pelo projeto antitabágico do HU USP
Responsável pelo projeto Dr BARTÔ, de prevenção de drogas no ensino fundamental e médio