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A Pediatria, a Propaganda do Álcool na mídia e o Dr. Bartô

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São Paulo já é Ambiente Fechado Livre do Tabaco (AFLT) desde 2009 com diminuição das doenças relacionadas ao tabagismo passivo. Mesmo assim, o Brasil tornou-se AFLT apenas em final de 2014. O lobby da indústria e o descaso de políticos e politiqueiros custou-nos quatro anos de atraso. Além da lei, o aumento do preço do tabaco, a proibição da propaganda e o tratamento gratuito nos levaram à diminuição do consumo de cigarros em 50% e a sermos o quarto país no mundo em numero de ex-fumantes.

Em estudo patrocinado pela Pró-reitoria de Cultura e Extensão da USP comprovamos que o uso das drogas lícitas se iniciam aos 10 anos de idade e, no último ano do ensino médio, 25% dos jovens estão fumando, 59% estão bebendo (álcool), 20% já usaram maconha e 5% já experimentaram o crack. Tudo é muito precoce e os 25% de jovens fumantes em escolas públicas no bairro do Butantã é um número bem superior ao de maiores de 18 anos fumantes (11 a 14%). Ou seja, há um risco de voltarmos ao passado no quesito tabaco.

Na cracolândia, há dependência de drogas ilícitas (maconha e crack) e de drogas lícitas (o álcool). Sempre considerei o tabagismo uma doença pediátrica, mas hoje digo que álcool, maconha e tabaco são doenças pediátricas. A Sociedade Brasileira de Pediatria vem se preocupando com esses temas e coloca claramente a necessidade do pediatra se envolver nessa luta da prevenção das drogas. Num consultório pediátrico não deveríamos ter coma alcoólico aos 14 anos de idade, bem como na fatídica festa de 15 anos não deveria ser autorizada bebida alcoólica pelos pais amigões. Esses são os piores. Também não deveríamos ter internações por surto psicótico desencadeado pelo uso da maconha.

Recentemente, aprovou-se a retirada da propaganda do álcool da mídia até às 21 horas. Agora, a propaganda de álcool só poderá ser realizada após às 21 horas e até às 23 h apenas em programas para maiores de 18 anos. Ouvimos pontos a favor e contra e é óbvio que a indústria da bebida alcoólica está se movimentando nos bastidores para reverter essa lei benéfica para retardar o início do álcool em jovens até que ocorra a maturação cerebral, pois qualquer droga iniciada antes dos 21 anos pode causar maior dependência.

Quando o projeto de prevenção de drogas “Dr. Bartô” vai às escolas e pergunta aos adolescentes qual é a droga menos traumática, eles respondem: maconha e álcool. Será que a sociedade sabe que o que mais mata o jovem hoje são acidentes, grande parte relacionados a essas duas drogas? Será que os jovens sabem que o álcool é responsável pelos maiores problemas sociais que temos, como abandono escolar, gravidez indesejada, mulher espancada, criança vitimizada, acidentes automobilísticos e morte, afogamentos, desemprego etc…?

Trabalhos neozelandeses demonstram que o abandono escolar e o insucesso na faculdade estão presentes 7 ou 8 vezes mais em quem usa drogas.Enquanto diminuímos o tabagismo, “forças ocultas” lutam a favor da descriminalização da maconha e favor da não retirada da propaganda de álcool da TV em horário de crianças e menores de idade assistirem seus programas.

Do ponto de vista médico, a retirada da propaganda de álcool da TV é um fator importante para retardar o início do álcool na nossa juventude. Outros passos têm que ser discutidos para avançarmos na prevenção da bebida alcoólica para menores de idade: aumento do preço, proibição da venda em postos de gasolina, não utilização em locais públicos, proibição de festas open-bar, etc…

Os pais também têm que se posicionar a esse respeito, pois se o adolescente bebe em casa com os pais, ele beberá fora de casa e aí, com os amigos, a quantidade será outra.

Coloco-me totalmente favorável à retirada da propaganda de bebidas alcoólicas em horários de crianças e adolescentes assistirem a mídia, e a favor de programas de prevenção de drogas nas escolas. E relembro que cerveja é bebida alcoólica.

*João Paulo Becker Lotufo é doutor em Pediatria pela USP, membro da Sociedade de Pediatria de São Paulo e Sociedade Brasileira de Pediatria, responsável pelo projeto Dr. Bartô para prevenção de drogas no ensino fundamental e médio, responsável pelo ambulatório antitabágico do Hospital Universitário da USP.


Lotufo JPB. O conhecimento dos pediatras e pneumopediatras sobre tabagismo (carta ao editor). Pediatria (São Paulo) 2007;29(1):75-6.
Lotufo JPB. Tabagismo, uma doença pediátrica. In: Lotufo JPB. (Org.). Tabagismo, uma doença pediátrica. São Paulo: Editora Sarvier, 2007, p. 17-9.
Owen KP et al. Clin Rev Allergy Immunol. 2014 Feb;46(1):65-81. Marijuana: respiratory tract effects.
Epub 2013 Jul 12. Marijuana use and risk of lung cancer: a 40-year cohort

Lotufo JPB. Porque tornar o seu local de trabalho ou sua casa livre do cigarro.  In: Joao Paulo B Lotufo. (Org.). Tabagismo: uma doença pediátrica. São Paulo: Editora Sarvier, 2007,p. 31-5.

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